sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Aguardado filme sobre a vida de Elis Regina deixa a desejar

Elis o filme cartaz divulgação

No último domingo, eu fui assistir ao tão esperado filme sobre a vida da Elis que estreou na quinta-feira, dia 24. Sempre fui fã da cantora e estava ansiosa por isso. Então, como surgiu a chance de ir ver logo no fim de semana de estréia, eu não perdi tempo. Só que, após tanto tempo de espera para ver a vida de Elis Regina na telona, o sentimento que melhor define o que senti é decepção. Esperava muito mais do filme...

Achei a abordagem escolhida pelo diretor Hugo Prata bastante superficial. Claro que a vida de ninguém cabe dentro de um filme de 2 horas, ainda mais a de uma pessoa tão intensa como Elis Regina, mas vários fatos e pessoas importantes na trajetória da artista ficaram de fora do longa. Eu esperava ver Milton Nascimento, Tom Jobim, Belchior e Gilberto Gil, mas nenhum deles apareceu. E o que se vê na tela é uma sucessão de acontecimentos apresentados de forma apressada e desconexa e que exigiam um certo conhecimento prévio da biografia da cantora para serem compreendidos.

O roteiro força um pouco a barra também ao enfatizar a participação dos homens na vida de Elis. Deu a impressão de que a mulher que ganhou o apelido de Pimentinha e que, para além da música, se destacou por suas convicções ideológicas e políticas, se pautava na opinião masculina ao seu redor para dirigir a própria vida. Uma cena em que essa abordagem chegou a ser patética foi quando a cantora adotou o corte de cabelo joãozinho, que se tornaria uma de suas marcas registradas, imediatamente após receber essa sugestão de Ronaldo Bôscoli, que viria a se tornar seu primeiro marido. 

Elis o filme Gustavo Machado
Gustavo Machado interpreta o mulherengo Ronaldo Bôscoli, primeiro marido de Elis.

Jura que, numa noite, um cara que ela mal suportava (claro que já havia um desejo reprimido naquela raiva toda, mas não justifica) diz que ela ficaria linda com o cabelo curtinho e, na manhã seguinte ela já passa a tesoura na cabeleira? Só por causa disso? Muito influenciável essa Elis, não?! Ah, por favor! Me recuso a acreditar que foi assim! (Por sinal, essa é a cena que ilustra o cartaz de divulgação ali acima no início do texto)

O filme dá a entender que Ronaldo Bôscoli foi muito mais importante na vida da cantora do que seu segundo marido, o pianista Cesar Camargo Mariano. O primeiro casamento de Elis é colocado como palco de uma paixão conturbada, mas avassaladora e o segundo como uma relação morna e quase assexuada. Mas será que as coisas realmente foram assim? 

A cena em que Elis faz a famosa primeira gravação da música Atrás da porta, por exemplo, emocionou, mas deu uma excluída nos sentimentos que a cantora já nutria por Cesar e focou apenas no seu sofrimento pela recente separação de Bôscoli, sendo que o turbilhão emotivo do momento foi causado justamente pela mistura de sentimentos, como é sabido.

Mas, se o filme como um todo é superficial e dá as suas derrapadas, a interpretação de Andreia Horta é irrepreensível! A atriz conseguiu se comunicar com a alma da cantora. Andreia incorporou os trejeitos, as expressões e o olhar de Elis de tal forma que, durante a maior parte do filme, a gente esquece que não é a própria Pimentinha que está ali.

Na cena em que Elis canta Cabaré, enfrentando as vaias do público com sua postura firme e versos certeiros após o episódio com os militares, o olhar que vemos com certeza não era apenas o de Andreia.

Elis o filme Andreia Horta
Cena do show Falso Brilhante em que Elis canta Fascinação.

Me emocionei também em Fascinação, que Elis canta acompanhada de Cesar Camargo ao piano, sendo ovacionada pelo público ao final. E não fui só eu, dentro do cinema, muita gente não se segurou e bateu palmas como se tudo estivesse acontecendo ao vivo.

Elis, o filme não traz nenhum fato novo sobre a trajetória da cantora, pelo contrário. Sua morte é mais uma vez retratada de forma obscura e superficial numa cena rápida e fria. E o então namorado, que a encontra já sem vida em seu apartamento, não é sequer apresentado ao público como tal, tendo aparecido apenas uma vez ao longo do filme como advogado de Elis. Se eu já não tivesse lido um trecho de sua última biografia, não teria entendido nada.

Enfim, faltou muita coisa, muita gente e muitas músicas. Andreia Horta é quem faz o filme ser interessante. Mas eu não me arrependo de ter ido ver porque sempre gosto de tudo o que é feito sobre Elis. Apesar das faltas e falhas do filme, eu saí do cinema extasiada, envolvida com a história e a energia de Elis e, claro, cantarolando...

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